terça-feira, 14 de setembro de 2010

Conheça a comovente história de Neide Viana, e o porquê resolveu criar a
associação R.O.D.N.E. I

Sou assim, fui assim!
Podem as estatísticas me condenar o movimento feminista me crucificar...
Mas o meu sonho sempre foi ter um filho, e este desejo começou exatamente na minha adolescência, quando a maioria das meninas, sonham com um príncipe encantado.
Não permitirei, agora depois do que tudo que aconteceu que tentem menosprezar a minha vida.
Para mim,,não me importava quem seria o príncipe, o que queria era um filho só para mim!
Quando me lembro da minha infância, o que me vem na cabeça, e a visão de um terreno enorme, cheio de buracos de erosão, era lá o nosso parque diversões.
A água da enxurrada era a nossa cachoeira, como nos divertíamos a rua o nosso quintal.
Acho que nasci independente, não tive estas coisas de cordão umbilical, assumi a minha vida desde pequena, aos oito anos de idade vendia alfaces e outras verduras, ajudava minha mãe criar meus irmãos.
Sentia-me a mãe deles também!
Não preciso fazer nenhum esforço de memória, para lembrar o dia do meu aniversario de cinco anos. Um bolo pequeno com recheio de clara de ovos, suco de saquinho já distribuídos em seus devidos copos, e algumas bexigas nas paredes, dividindo espaço com três canários da terra, que cantavam fazendo coro com os gritos das crianças que esperavam ansiosas pelo pequeno pedaço de bolo.
Lembro até da cor do meu vestido, era vermelhinho, uma cor que combinava com o que estava para acontecer...
Foi de uma hora para outra, derrepente minha mãe começou a gritar, gritos de dor e agonia.
Na sala as crianças calaram- se assustada, quando sentiram que alguma coisa fora do normal estava acontecendo. Fomos tiradas as pressas de dentro da casa, e a parteira foi chamada, não entendi nada, nem sabia que mamãe estava grávida.
Levaram-me para casa de uma vizinha cega que morria de medo, fiquei ali num canto calada esperando o meu irmão vir ao mundo.
Quando tudo acabou, voltei para casa, quando olhei para cara da minha mãe, notei que ela estava abatida, com um misto de tristeza e alegria. Ela me olhou nos olhos, e num gesto de desespero, me disse: toma o seu presente de aniversário...
Aquelas palavras chegaram aos meus ouvidos, como uma melodia perigosa e atormentadora.
E foi assim que aconteceu, passeia tomar conta dos meus irmãos, como se fossem todos os meus bonequinhos, estavam comigo em todos os lugares.
Mas nesta história tinha mais um personagem, uma pessoa que não conversava, não brincava apenas trabalhava e usava toda sua forca física para demonstrar suas vontades, e sua vitima principal era minha mãe. Assistia toda aquela violência nos cantos da casa, quase sempre calada, amiúde, mal sabia que aquela violência me perseguiria por uma boa parte da minha vida.
Mas voltemos a falar do meu sonho. A única coisa que acreditava que poderia trazer alegria a minha existência seria um filho, mas um filho meu de verdade.
Comecei uma busca frenética para realização deste sonho, variados tratamentos para engravidar, tentativas quase sempre inglórias. Não me importava quem seria o pai, queria um filho de qualquer maneira.
Virou uma reza doentia, só pensava naquilo, apesar das reprimendas de todos ao meu redor.
Mas um dia, o meu sonho foi realizado... Com 19 anos de idade concebi uma criança linda, desejada.
Dei o nome de Rodnei, e a partir daí minha existência ganhou outra dimensão.
Não mais tinha a minha vida, ou melhor, vivia em prol da felicidade do meu pequeno anjinho.
Enquanto fui mãe dele, vivi a mais plena felicidade, com momentos difíceis é verdade, mas o suficiente para não me acalmar quando sentia aqueles olhinhos me olhando e suas pequeninas mãos me acariciando.
Oh, meu pequeno, como sinto a sua falta!
A coisa aconteceu abruptamente, sem que ninguém esperasse, e tudo isto quando ele estava no auge da sua juventude, nos louros do inicio de um casamento feliz.
Tinha apenas 25 anos de idade, uma vida inteira pela frente.
O levaram de mim sem a minha permissão, roubaram o meu sonho, e junto levaram também a minha vida.
Ainda me lembro quando entrei na sala do IML, não tive dúvidas era o meu menino.
Aqueles olhos que me faziam renascer todos os dias, se fecharam para sempre!
Então com uma fúria que só as mães são capazes de sentir, comecei a procurar os culpados daquele crime tão bárbaro. Meu filho, meu pequeno, morreu com quatro tiros a queima roupa, sem chances de defesa, os jornais deram mais uma manchete: “Mais um jovem é executado na periferia”
Colocaram a noticia como se a vida do meu filho não valesse nada, era apenas mais um nas estatísticas deles.
Depois de muito tempo, a minha fúria deu lugar a uma tristeza infinita. Mesmo que eu soubesse tudo o que aconteceu, minha dor não diminuiria meu menino não voltaria mais...
A violência que tanto me perseguiu, desta vez tinha de fato me atingido.
Sem forças para lutar cai abatida, vivia sustentada pela energia do vento, pela força da natureza.
Para continuar vivendo resolvi dedicar todo o meu tempo as pessoas que precisassem de ajuda, somente sendo solidária poderia reunir forças para continuar.
E lá no fundo, não queria que minha família esquecesse o meu menino, então resolvi eternizar sua presença na terra.
E foi assim que tive a idéia de criar uma associação com o seu nome: R.O.D.N.E. I, onde dou auxilio há mais de 500 famílias, assim pude continuar de pé.
Associação Resplandecer a Ordem e o Direito de Nascer a Esperança da Igualdade

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